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Quando crianças, eu tinha as melhores Barbies e ela ficava com o que restava, sem nunca ter reclamado.
Numa ocasião, eu fiz birra porque não queria viajar pra casa de nossos avós paternos. Ela, pelo contrário, queria ir de todo jeito. Papai disse que só levaria se fôssemos nós duas. Recordo-me até hoje da cena dela com a malinha na mão chorando e eu escondida na barra da saia da minha mãe. Por minha máxima culpa, estraguei os planos dela.
A primeira vez que respondi pra minha mãe, me inspirei nela. E, contraditoriamente, a primeira vez que precisei de alguém que apaziguasse a situação entre eu e mamãe, foi ela quem o fez, com aquela ligação na madrugada.
Quando precisei da chave de casa naquele carnaval, ela me emprestou e escondeu de todos o verdadeiro motivo.
Engolimos o choro pra confortar uma a outra, nas mortes dos nossos queridos.
Rimos juntas dos "desastres" de nossas vidas.
Me orgulho muito de sua meiguice e me culpo por ser quase um moleque (em questão de delicadeza). Fico toda cheia quando ouço que ela é linda. Ela é sim! A mais linda de todas!
Era tão inocente que insistia em me contar seus segredinhos, sabendo que na primeira briguinha boba, eu contaria pra nossa mãe.
Quase morreu de medo, mas não arredou o pé quando ameaçaram bater em mim na sexta série... Tadinha!!
Briguei muito pelo seu jeito despreocupado com a vida, escondendo no fundo uma vontade louca de vê-la vencer.
Quase a obriguei a prestar vestibular na mesma faculdade que eu, e no mesmo curso, de preferência.
Já soquei muito ela (devido o meu lado “jeitoso” de fazer valer o que eu quero) e, já gritei com ela na rua. E ela, com toda experiência que nossos dois anos de diferença lhe deram, simplesmente me ignorou.
Ganhei vários presentinhos surpresa dela, e retribuí com o mais sincero sorriso. SOMENTE com isso.
Quase fiz ela arrancar os cabelos - tamanha preocupação - na ocasião em que quis medir a força do meu fêmur numa moto a 80 km/hr. Ela chegou no hospital toda esbaforida, toda chorosa. E cantou comigo “vem ficar comigo, sem mais demora...” nas noites longas que seguiram, pra tentar, quem sabe, enganar minha dor. Levou até uma bronca da enfermeira, por chamá-la a cada suspiro meu.
Confesso que fugi das aulas de culinária da minha mãe só pra me ver livre do compromisso de ajudar. E ela, mais uma vez, aprendeu a fazer o melhor almoço destes lados do oeste (rsrs).
Sempre sabe o que dizer a respeito de minhas relações amorosas - apesar de também saber que não adianta nada ficar dando conselhos pra alguém que não ama nem a si mesma.
Sempre me defendeu. Em qualquer hipótese.
Nunca teve vergonha de carregar a irmã pentelha nas baladinhas com suas amigas.
Sempre teve que suportar as minhas estúpidas piadinhas em relação a sua doce ingenuidade.
Na adolescência, teve que trancar o quarto várias vezes pra eu não ler seu diário. Ultimamente, trancava pra evitar que eu fizesse visitinhas no seu guarda-roupa.
Me ensinou muito sobre os meus ídolos, me mostrando um mundinho diferente daquele que eu via na televisão. Na verdade, me ensinou quase tudo que eu sei. As outras parcelas, eu devo a minha mãe e minha avó.
Mas, de repente, veio com um papinho de que precisava sair daqui, porque a cidade estava pequena pros seus sonhos.
Deixou-me aqui e foi-se embora.
É.
“Eu continuo aqui
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você
Em dias assim:
Dias de chuva, dias de sol
E o que sinto, não sei dizer...
Vai com os anjos
Vai em paz
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez”
Eu sei que sou uma criaturinha insuportável, mas, neste caso, mereço ouvir um pedido de desculpa.
Posso estar sendo egoísta (sei que estou), mas ainda assim mereço.
Sei que tenho que aprender a me virar sozinha, mas ainda assim, mereço.
Sei que não ficaríamos a vida toda juntas. Mas mereço assim mesmo!
Mereço porque ela deixou arte por fazer. Deixou conselhos por dar. E também porque deve estar cheia de amigas novas, por lá.
=[
É só saudade, no Natal passa.
Ps: Essas coisinhas são difíceis de dizer no focinho da pessoa.

E tá cheia dos passeios, por lá. hehehehe!! Que fofura essa guria, não?
Na última vez que veio, quando ligou pra avisar que viria, disse: "Carlinha, fala pra mãe que não precisa arrumar meu quarto. Eu quero dormir no seu: vamos ficar de conversinha à toa..."
Quando chegou, me acordou com um beijinho e me chamou pra passear. Fiz beicinho porque ela não quis ir pra boate comigo. No outro dia, comemos numa lanchonete. Falamos do dia-a-dia, pra não demonstrarmos que a saudade machuca. Nos despedimos com voz trêmula e fomos chorar separadas.
Ela, no ônibus de volta.
Eu, no caminho pra casa.

criado por Cáh.
14:01:41